Entrevista - Part1 - Press : Villa Ramadas

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PressEntrevista - Part1

Entrevista - Part1

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23-11-2007

António Araújo e Arnaldo de Sousa, Jornal o Povo da Barca

José Duarte Fernandes: "Há toxicodependentes que, tendo abandonado o uso de drogas, recaem ao fim de 20 anos"

As dependências – nas diversas formas que podem assumir – constituem um dos mais graves problemas das sociedades contemporâneas.

O Centro de Tratamento Villa Ramadas, sedeado em Alcobaça, tem uma história de sucesso no combate às dependências.

Numa das publicações da instituição, Maria de Jesus Barroso Soares, então Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa escreve que “vale a pena descobrir e acompanhar o trabalho admirável que se faz neste Centro.”

José Duarte Esteves Fernandes, barquense de nascimento, é terapeuta do Centro e seu representante no norte do país.

“O Povo da Barca” foi ao seu encontro para saber mais sobre uma problemática que tem afectado tantas famílias.

“O Povo da Barca” - O vosso Centro dedica-se ao tratamento da adição. O que é afinal, um adicto?

José Duarte Fernandes – Acreditamos que a adição é um problema genético, uma doença. A Organização Mundial de Saúde reconhece-a como tal. Um adicto é uma pessoa predisposta a ter comportamentos obsessivos, compulsivos/ impulsivos. Um doente adicto não gota de si, não tem auto-estima, nem amor-próprio. No fundo acha-se um ser inferior.

P.B. - Que formas de adição podem ser identificadas?

J.D.F. – As químicas (álcool, drogas) e as comportamentais (anorexia, bulimia, jogo, exercício físico, trabalho, sexo, compras…). Há um espectro muito alargado. Os dependentes de drogas e álcool, até pelo seu comportamento, são portadores de uma forma de adição mais visível.

P.B. – Defendem que a adição é uma doença incurável…

J.D.F. - É uma doença porque se manifesta mesmo sem o uso de qualquer substância. As dependências comportamentais provam isso mesmo. Por exemplo: um adicto que tenha abandonado as drogas, se não possuir um programa para orientar a sua vida, vai continuar instável, sem auto-estima. Mesmo sem o uso da substância, o problema comportamental permanece.

P.B. – O adicto não controla as emoções?

J.D.F. – No fundo, trata-se de um descontrolo das emoções, de sentimento baralhados. É como se os sentimentos estivessem desgovernados: os toxicodependentes, por exemplo, quando consomem drogas demonstram raiva em relação aos pais; quando estão em tratamento amam-nos. Há uma forte instabilidade emocional. Nós acreditamos na reconstrução do indivíduo, com outros valores. Até porque, quando abandona o uso de drogas, fica um vazio.

P.B. – A pessoa sente-se inferior?

J.D.F. – Sente-se inferior, não se ama, não se aprecia. È comum a sobrevalorização do que é negativo, acha que ninguém gosta dela, sente-se inadequada, acha que todos a perseguem e conspiram contra ela…

P.B. – É um inferno.

J.D.F. – É um autêntico terror. Por isso, manifestam uma propensão para fugir da realidade e encontrar um qualquer escape. Essa fuga da realidade concretiza-se nos pequenos momentos de prazer imediato: com as drogas, o álcool…. O objectivo de qualquer adicto é sentir prazer 24 horas por dia. Se consome droga, por exemplo, está feliz, se não consome, está ressacado. Se é obcecado pelas compras, está feliz quando compra… Há uma ressaca psicológica que, muitas vezes, influencia a parte física.

P.B. – Em que consiste o tratamento que utilizam no vosso Centro?

J.D.F. – Apostamos num modelo integrativo multidisciplinar, utilizando elementos de diversas correntes teóricas: o modelo terapêutico Minnesota, na sua versão de abstinência total, a Humanística, a cognitivo-comportamental, a Gestalt e a psico-dinâmica.

P.B. – Não há um tratamento de parte física?

J.D.F. – Claro que primeiro é necessário resolver a parte física, a chamada sindroma de abstinência. Quando é necessário faz-se uma desintoxicação sob direcção médica. Depois é que o paciente entra no programa propriamente dito. Todos os dias, tentamos evitar que as pessoas pensem em drogas, em álcool, que evitem sofrer.

P.B. – Como?

J.D.F. – Através de terapias que devolvam a auto-estima, o amor-próprio, o sentido de produtividade. Há terapias em grupo e individuais. Procura-se que falem das suas emoções, dos seus sentimentos, dos seus comportamentos. Essa abordagem terapêutica que utilizamos é um trabalho interior que visa encontrar mecanismos que permitem lidar com a dor, que devolvam a esperança, que potenciem a luta pela felicidade. No fundo, a solução é espiritual. Um trabalho de recuperação de auto-estima, sem drogas. É necessário quebrar a negação, aprender o amor, ser capaz de ir ao passado de cada um, ver o que fez, libertar-se de pensamentos e destrutivos.

P.B. – Podemos falar de uma gestão global?

J.D.F. – Claro. O indivíduo é um todo. Tentamos que modifiquem a sua atitude perante a vida. Que o demonstrem no seu comportamento diário. E posso dizer que, para além do esforço individual, cada grupo ajuda-se mutuamente.

P.B. – Pode concretizar melhor o que quis dizer quando falou, há pouco, em regresso ao passado?

J.D.F. - É uma forma de reorganizar o raciocínio, de recordar a forma como magoaram os outros, relembrar o sofrimento o sofrimento que causaram a si e aos outros.

(continuação)

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